terça-feira, 23 de junho de 2015

Quem não tem namorado


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição. Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada, quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beiras d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar,- quem namora sem brincar, - quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com o ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pensando duzentos quilos de grilos e de medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.

domingo, 24 de maio de 2015

Ao meu grande amor


Eu que sei um pouco de ti,
Me perco em teu infinito eu,

Me perco em teu olhar tão meu, me deixo sentir como eu me encho de ti.

Te peço e de coração me atendes, tão rápido e seguro de si que vejo ser pra mim o que seu coração sente.

Me olhas tão ímpeto 
me tomas mão com mão tão íntimo
Que te sinto imergindo de meu particular infinito.

Divido com seus lábios no mesmo momento,
O cigarro partilhado que queima lento.
E em meus lábios o sinto úmido,
Comprimido

Matando meu desejo louco
Ou apenas um pouco do que sinto.

Músicas são nossa melhor troca irreal,
Informações tão únicas, mudas, nuas que completam meu sentimento surreal.

És meu medo mais audacioso
Aquele infinito que teimo em desvendar,
És o beijo roubado, mais gostoso que em alguém eu posso dar.

Sei o que sentes,
Gosto de pensar que me permites te tocar,
Por sentires a ância do meu olhar..

Não sei se um dia terei a graça do seu bem-querer,
Mas eu sei que serei seu,
Mesmo que no simples tocar
Pois me perco em teu olhar
Como um rio que banha-se no mar.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Palavras cantadas

Algumas - muitas - músicas encaixam-se perfeitamente quando queremos falar algo e não sabemos como.


- Sãos os fatos meu caro. 

* É que um carinho as vezes cai bem..

- Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer..

*Pois é, eu nunca disse que iria se a pessoa certa pra você, mas...

- Mas?

*Mas não é impossível
 Eu não sou difícil de ler
 Faça sua parte
 Eu sou daqui, eu não sou de Marte
 Vem cara, me repara.

- Eu saio na capoeira, sou perigosa sou macumbeira.

*Eu insisto pois
 Achei você no meu jardim
 Entristecido, coração partido
 Bichinho arredio.

- Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer.

*Me deixa ser
 O seu pinguim de geladeira
 Eu fico uma semana inteira
 Sem mexer...

 Me deixa ser
 O passarinho do relógio
 Que de hora em hora
 Pode aparecer
 Pra eu te ver..

- Ah o amor me pegou e não descanso enquanto não pegar aquela criatura.

* Então vem, que eu conto os dias conto as horas pra te ver.

- Você com essa sua mania sensual de sentir e me olhar, você com esse seu jeito contagiante fiel e sutil de lutar.. Não sei não.

* Simplesmente aconteceu.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Pelo amor livre


Pelo Amor Livre
Eu prometo não te prometer nada
Nem te amar para sempre
nem não te trair nunca
nem não te deixar jamais.
Estou aqui, te sinto agora
sem máscaras nem artifícios
e enquanto for bom para os dois que o outro fique.
Nada a te oferecer senão eu mesmo
Nada a te pedir senão que sejas quem tu és
a verdade é o que de melhor temos para compartilhar.
Tuas coisas continuam tuas e as minhas, minhas.
Não nos mudaremos na loucura de tornar eterno
o que pode ser apenas um breve instante.
Se crescermos juntos
ainda que em direções opostas
saberemos nos amar pelo que somos
sem medo ou vergonha
de nos mostrarmos um ao outro por inteiro.
Não te prendo e não quero que me prendas
Nenhuma corrente pode deter o curso da vida
nenhuma promessa pode substituir o amor
quero que sejas livre como eu também quero ser.
Companheiros de uma viagem que está começando
cada vez que nos encontramos novamente.

terça-feira, 11 de março de 2014

Nas formas da sua mão


Em suas mãos a forma se deu.
Em meio a troca de olhares e palavras ao vento.
Inconsciente e involuntário um trevo se fez.

E quatro folhas aparecem.
Ao perceber, logo de súbito, a tristeza disfez.
Entre sorrisos, olhos e furacões
Um sentimento nasce entre duas imensidões.

Como a sorte de um trevo de quatro folhas
Assim é a sorte de um amor tranquilo
que indave num grito o meu universo particular infinito.

As mãos que no papael eu vi 
Dar significado a algo tão ínfimo
Tornaram-se dentro de mim, 
Um desejo que corre sem ímpeto.
E no mais tardar da noite
As mãos mágicas e seguras de si
Fugiram na noite para longe de mim..

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

É o amor que existe em mim.

Ah como eu quero viver o amor do teu ser que um dia experimentei...
É um amor distante, mas muito presente;
Um amor lindo que sinto, muito lindo, mas eu ainda não o tenho mais perto;
É um amor forte, mas que nos torna sensíveis, simples e inocentes como crianças;
É um amor grande, mas que nos torna pequenos e desprovidos de desejos de grandeza;
É um amor de primavera, mas que está presente em todas as estações do ano;
É um amor atrevido, mas que sabe respeitar o coração amado;
Um amor que chora com a distância e uma possível separação pelas circunstâncias do destino, mesmo quando os corpos nunca estiveram juntos;
É um amor que traz paz em meio a tanta dor causada pela distância;
É um amor que encurta a distância e une dois corações em um só coração;
É um amor que dá esperança de ter novamente aquele encontro inesquecível;
Um amor que dá a certeza de nos pertencermos, mesmo quando as impossibilidades são reais;
É um amor que vivifica.
É o amor que existe em mim.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O teu riso


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda